quarta-feira, 17 de abril de 2024

UMA ANÁLISE CRÍTICA DOS EFEITOS DA MANUTENÇÃO DE UM CÂNONE EUROPEU, MASCULINO E BRANCO NOS CURSOS DE FILOSOFIA COM A EXCLUSÃO DO QUE É CONSIDERADO “OUTRO”.

 UMA ANÁLISE CRÍTICA DOS EFEITOS DA MANUTENÇÃO DE UM CÂNONE EUROPEU, MASCULINO E BRANCO NOS CURSOS DE FILOSOFIA COM A EXCLUSÃO DO QUE É CONSIDERADO “OUTRO”.

Em 1792 Mary Wollstonecraft publicou “Reinvindicação dos direitos da mulher” defendendo a igualdade de gêneros 1 e denunciando os prejuízos sobre a mulher restrita ao lar e sem acesso à educação formal, o que resultava em sua dependência dos homens. Foi uma resposta à Constituição Francesa de 1791, que mesmo tendo tido grande participação de mulheres na Revolução de 1789 não as incluiu como cidadãs mandando-as de volta ao lar. Uma situação que irá se repetir após a segunda guerra mundial e denunciada por Betty Friedan nos Estados Unidos em seu livro “A mística feminina” onde ela demonstra todo o esforço da propaganda e das ações políticas para que a mulher voltasse a ser a “rainha do lar”, após ter assumido frentes de trabalho na falta dos homens que estavam na guerra e o quanto isto não satisfazia mais a mulher. É preciso ter em mente que aqui se trata da mulher de classe média, e não das trabalhadoras ou mulheres pobres e do campo.

Outras mulheres lutaram pelo direito à educação, campo restrito aos homens, o que impossibilitava a mulher de adquirir conhecimentos e formação, e possibilitava aos homens continuarem a alegar que a mulher não era capaz de racionalidade, de julgar e de pensar filosoficamente. Desde a Grécia Clássica esta é uma ideia que se propaga até os dias atuais, mesmo hoje as mulheres tendo acesso à educação formal, no campo da filosofia elas continuam sendo preteridas aos homens, bastando para isto verificar os currículos dos cursos e suas bibliografias onde talvez iremos encontrar uma, duas ou três mulheres, nada além disto. É interessante notar também que quando colocamos no google uma busca por filósofas mulheres é apenas um grupo restrito que aparece, sendo que muitas aparecem como escritoras ao invés de filósofas, mencionando isto, quando o fazem, apenas uma vez na descrição. Se fizermos uma busca por filosofia em sites de livrarias são os homens que irão aparecer, com raras exceções; será preciso buscar por feminismo para encontrar as filósofas e isto sem falar na falta ou demora de traduções de mulheres filósofas para nossa língua, que pode levar anos desde a primeira publicação da obra.

É justamente o campo da filosofia o que tem mais restrições às mulheres, pois atualmente outros campos de saberes como a psicologia, a sociologia e a antropologia já estão

1 O termo gênero não era usado na época em que ela escreveu, sendo utilizado o termo sexo.

mais abertos a produção intelectual feminina. Porém, se são abertos ao feminino ainda tem imensas restrições a produção intelectual que não seja europeia ou norte-americana, excluindo os saberes dos povos africanos, latinos e indígenas, e também os do oriente, o que é ainda mais drástico na filosofia. Ainda hoje vamos escutar homens alegando que não existe filosofia que não seja a ocidental. Em suma, segundo estes a filosofia é algo do ocidente e de homens brancos, o cânone filosófico é composto pelos que são chamados de grandes mentes, excluindo a todos os outros, como sendo incapazes de filosofar. Justamente aqueles que se alegam os mais capazes de raciocínio seriam os que não conseguem alargar sua capacidade de pensar? Restringindo a filosofia a alguns pontos epistemológicos e metodológicos que não permitem a inclusão de outros saberes ou de outro gênero?

Desde os gregos à atualidade o sistema patriarcal se impôs havendo com isto uma descriminação da mulher, e se percorrermos o pensamento através destes séculos todos iremos encontrar muita misoginia. Além disto se tornou norma pensar a mulher em relação ao homem. Todas as pesquisas que são feitas tem por parâmetros o pensamento masculino e patriarcal, conforme bem o demonstra Gilligan nos exemplos que nos fornece em seu livro “Uma voz diferente”sobre pesquisas com crianças e adolescentes meninos e meninas em relação a sua posição ao julgamento moral, ou nos jogos que Piaget estudou, onde se valoriza sempre aspectos de competição, individualismo, capacidade de criar regras em detrimento da reciprocidade e do interesse pelo outro, como se isto fosse fraqueza, despreparo para enfrentar o mundo e claro, o mercado, o mundo capitalista.

Por outro lado, o pensamento eurocêntrico e norte-americano se expandiu como tentáculos de polvo. Oyewùmí em seu livro “A invenção das mulheres” levanta a questão da formação de africanos em universidades europeias que acaba por impossibilitar uma análise da África pelo que de fato ela é, uma vez que aplicam conceitos ocidentais em um mundo que não responde a estes. O que dizer então de estudos sobre os indígenas no Brasil, que além de poucos e feitos por antropólogos, também em muitos casos se utilizam de conceitos que não se aplicam ao pensamento indígena. A questão não é restringir os estudos e pesquisas somente ao indígena, ao africano ou às mulheres sobre si próprios, mas alargar o pensamento e buscar compreender e ouvir o que diz o outro, mudar a metodologia usada para abranger uma lógica que não é eurocêntrica, como foi feito no livro “A Queda do céu”, resultado do encontro entre David Kopenawa e o antropólogo francês Bruce Albert que deu voz a um xamã dentro de sua lógica.

O bloqueio aos outros saberes está presente nas Universidades, e uma das formas mais utilizadas é alegar que pesquisas acadêmicas precisam ser objetivas, escritas, racionais e se

utilizarem da metodologia e da epistemologia ocidental e masculina. Com isto se torna impossível a abertura a outros saberes. A história oral, a experiência de si mesmo, a literatura, a poesia, diários e cartas que foram recursos utilizados por mulheres para expor seus pensamentos filosóficos, e outros conceitos são repudiados e considerados não acadêmicos e não filosóficos. Com isto uma única voz pode falar e ser ouvida, as outras não encontram interlocutores. Mas não podemos deixar de notar que quando se trata de homens brancos europeus estas restrições deixam de existir, uma vez que Homero se utilizou da poesia, Sócrates não deixou nada escrito e Sartre escreveu romances, ditos romances filosóficos.

Diante disto surgiram os estudos de gênero, estudos feministas, os estudos decoloniais, os estudos indígenas e se criaram outras metodologias e epistemologias, alargando o campo do saber, ainda que muito criticadas ainda hoje, principalmente por europeus e também pelos homens e até mesmo algumas mulheres. O ecofeminismo, a filosofia do cuidado, democracia feminista, epistemologia feminista, decolonialismo são alguns dos novos estudos que estão surgindo, na tentativa da desconstrução deste eurocentrismo, o que não significa a destruição do pensamento destes que pertencem ao cânone, mas o alargamento para a inclusão do outro. Sair de um discurso monológico para o dialógico, o que Benhabib faz em seu livro “Situando o Self” ao dialogar com os filósofos europeus preservando o que ela considera sendo válido e acrescentando outros pensamentos para alargar o que eles pensaram.

Mas qual seria o motivo que levou estes homens brancos e europeus ao domínio do pensamento? O que eles almejavam com isto? É perfeitamente observável em suas obras o quanto se dedicaram a defender seus supostos argumentos no intuito de justificar seus atos e pensamentos. A desmoralização do outro, a naturalização, o essencialismo, a desumanização como feito em relação aos que foram escravizados que seriam pessoas sem alma, portanto, animais e a demonização da mulher lhe atribuindo a culpa original, a sedução e até mesmo o pacto com o diabo que resultou no que já é hora de darmos o nome correto, um genocídio com a caça às bruxas, queimando na fogueira além de homens e crianças, milhares de mulheres. Vamos encontrar nas obras filosóficas as justificativas que embasam estes atos moralmente condenáveis como a colonização e a exploração do outro, a suposta irracionalidade da mulher e sua demonização e o racismo entre outros e que vigoram até os dias atuais. Quando acompanhamos a luta indígena e quilombola por seus territórios precisamos nos remeter ao conceito de propriedade privada que não existe para estes povos que são coletivos e não individualistas. A terra é de todos, ela não tem dono, porém para os colonizadores isto significa exatamente isto – não tem dono, e se não tem dono é minha, tomo posse. A questão com a alma

do indígena e do negro, onde se definiu que o indígena tinha alma, mas era uma criança que precisava ser cristianizado, já o negro não a possuía, portanto era um animal, desumanizado o que permitia escraviza-lo. Sobre a irracionalidade da mulher são inúmeros trechos em obras dos grandes pensadores que afirmam isto, por mais que elas demonstrassem exatamente o contrário. Ao verificarmos qual o resultado disto tudo o que podemos inferir é que há por trás disto tudo um desejo pelo poder e pelo domínio, excluindo a todos que não sejam homens, brancos e europeus ou norte-americanos e possibilitando a conquista e o enriquecimento através da exploração e colonização.

Retornemos a questão das mulheres, afinal as mulheres brancas e europeias também foram excluídas. Aqui precisamos analisar em primeiro lugar o patriarcado e a misoginia. Entendo o patriarcado como o sistema da supremacia masculina na organização social, é o que exerce o poder, político e familiar, no público e no privado. À mulher resta o lar, mas ainda assim sob o poder masculino do pai ou do marido, na falta destes do irmão ou do tio. Quando falamos de filosofia até os dias atuais nos referimos ao seu nascimento na Grécia, apesar das críticas atuais e das tentativas de modificarmos isto alargando o cânone. Mas por agora consideremos a Grécia como o berço filosófico, e diante do patriarcado que naturaliza e transforma em dogmas ideias misóginas da incapacidade intelectual das mulheres, como fez Aristóteles na “Política” e outros pensadores, podemos compreender como as filósofas foram submetidas ao esquecimento a partir deste domínio masculino. Sabemos hoje que elas existiram, mas suas obras desapareceram, e se o sabemos é em função da menção a elas nas obras masculinas sejam filosóficas ou literárias, através da sátira em muitos casos, como no teatro grego, ou biografias como a de Péricles que nos relata sobre Aspásia e por um trabalho atual de pesquisa que é algo arqueológico, ou seja, “escavar” em bibliotecas, sebos, arquivos e também pela própria arqueologia que a cada dia acrescenta novas descobertas.

Porém, houve momentos de maior produção feminina, momentos em que a mulher esteve mais presente e tinha um pouco mais de voz, isto até o século XVIII, quando a misoginia aumenta e o repúdio às mulheres pensadoras também. Temos obras de mulheres da Idade Média que sobreviveram e hoje podem ser estudadas, como as de Hildegard de Bingen e outras religiosas, temos obras de Chistine de Pizan e de Dhuoda, entre outras. Estas mulheres são a evidência da resistência feminina, por mais que o patriarcado e a misoginia tentaram impor o domínio e o silêncio das mulheres e utilizou de uma ideologia e uma violência simbólica para dominar, não conseguiram totalmente. Sempre houve aquelas que escaparam da imposição das opções para mulheres, ou seja, o casamento, o convento ou ser a cuidadora da família. Na Grécia

foram as heteras2, na Idade Média e Moderna tivemos as beguinas e mulheres que viveram sozinhas, e por mais que muitas precisassem de um mentor, um homem que as apoiassem, isto também nos mostra que nem todos os homens eram misóginos. Por outro lado, a reação era sempre a de desmoralizar estas mulheres com termos pejorativos, as tratando sempre como prostitutas ou megeras, e com isto criando uma separação entre as mulheres colocando de um lado as direitas e honestas e do outro as pecadoras. Infelizmente isto permanece até os dias atuais entre as mulheres, o que é visível principalmente quando ocorre um caso de estupro, quando muitas mulheres que se pensam direitas e honestas acusam a outra mulher por suas roupas, por estar no lugar errado ou fora de hora, por haver seduzido o homem e outras acusações, negando-se a ouvir a vítima.

Não podemos esquecer que até o século XIX a filosofia era a mãe do saber, ou seja, incluía a psicologia, a sociologia, a medicina, a teologia, a política, a moral e a ética, portanto foram estes pensadores que forneceram o arcabouço intelectual da civilização Ocidental. Se até hoje ainda consideramos estes homens como as grandes mentes, os grandes pensadores e que são suas ideias que ainda regem muito do que vivenciamos atualmente a pergunta que precisamos fazer é: como podemos modificar isto? Como podemos alargar este pensamento para incluir outras ideias e vivências? Sim, vivências, pois dizer que a filosofia é totalmente abstrata e isenta do contexto histórico é uma falácia. Esta foi justamente uma das formas usadas para a dominação e a imposição destes pensadores.

Já sofremos três grandes feridas narcísicas com Copérnico, com Darwin e com Freud, três rupturas epistemológicas, e é chegado o tempo da quarta ruptura, desta vez na hegemonia do pensamento ocidental do homem branco e masculino. Os feminismos 3estão desalojando o homem de sua supremacia, novas epistemologias surgem para acabar com o epistemicídio em relação a outras culturas e saberes, alargar o pensamento para incluir e reconhecer o outro, e o Ocidente precisa reconhecer que não é superior e que não é o único que sabe filosofar, o que se traduz ao final por um movimento de transformação social do que vivenciamos até o presente momento.

2 As heteras são mulheres cultas, educadas, porém não são casadas, e acompanham homens em banquetes e reuniões. São como as cortesãs. Podem ou não terem relações sexuais com os homens.

3 A palavra feminismo tem controvérsias se deve ser utilizada no singular ou no plural, isto em função da diversidade e pluralidade entre as mulheres. Esta é uma questão ainda em debate. Opto pelo plural por considera-lo aqui sendo dialógico e situacional e como uma crítica ao pensamento abstrato universal que permitiu a dominação do homem branco e europeu. O feminismo precisa ser potência de transformação e inclusão, porém não se trata de assimilação do outro, mas ouvir e compreender.

sábado, 14 de janeiro de 2023

A Mulher na Préhistória


 Muito se fala da pré-história sempre no masculino, mas onde estavam as mulheres? Sempre ouvimos falar de homens caçadores e mulheres coletoras, como se elas vivessem apenas ao redor das cavernas, cuidando dos filhos e dos "afazeres domésticos". O estudo da pré-história se inicia no século XIX, com os historiadores, antropólogos, arqueólogos, todos homens, brancos e europeus. O século XIX é um dos mais misóginos e patriarcais e a visão destes homens era a que eles tinham da mulher. Atualmente com a entrada de mulheres nestes estudos, mas não só, pois homens também agora estão pesquisando e desmontando todas estas falácias e pesquisando sem este viés ideológico, e a história mudou. Antes ao encontrarem um túmulo com um esqueleto e armas, imediatamente era um homem, eles não conseguiam conceber uma mulher portando armas. Duas coisas mudaram, a primeira é a tecnologia que hoje permite verificar o sexo do esqueleto através de vários testes e o outro é que estas armas não eram para guerra e sim para caçar. Na próxima postagem falarei sobre a questão da suposta agressividade.

UMA ANÁLISE CRÍTICA DOS EFEITOS DA MANUTENÇÃO DE UM CÂNONE EUROPEU, MASCULINO E BRANCO NOS CURSOS DE FILOSOFIA COM A EXCLUSÃO DO QUE É CONSIDERADO “OUTRO”.

 UMA ANÁLISE CRÍTICA DOS EFEITOS DA MANUTENÇÃO DE UM CÂNONE EUROPEU, MASCULINO E BRANCO NOS CURSOS DE FILOSOFIA COM A EXCLUSÃO DO QUE É CONS...